Qual o papel da terapêutica de alta intensidade no tratamento das síndromes mielodisplásicas?



Nas fases mais avançadas da doença, ou em doentes que têm mais probabilidade de a doença se transformar em leucemia aguda, pode estar indicada uma terapêutica mais agressiva.

 

É através da classificação IPSS (Índice de Prognóstico) que se decide qual a terapêutica mais adequada para um doente. Pode existir indicação para fazer uma quimioterapia de indução, tal como se realiza para a leucemia aguda, ou, no caso de doentes mais jovens, pode haver indicação, após realização de quimioterapia de alta dose, para efectuar um transplante de um dador compatível, caso este exista.

 

Quimioterapia

 

A quimioterapia consiste na utilização de fármacos para tentar eliminar as células tumorais que possam existir no organismo, mesmo que não tenham sido detectadas com os exames que utilizamos para estadiamento. A terapêutica pode ser constituída por um único fármaco ou por uma associação de fármacos.

 

A quimioterapia em baixa dose com citosina arabinosido (CAR) foi utilizada durante alguns anos, mas os resultados raramente foram satisfatórios. Foi sobretudo usada nos doentes mais idosos. Nos casos em que houve resposta (menos de 20%), esta foi normalmente de curta duração e registou-se um aumento de incidência de infecções.

 

O regime terapêutico mais utilizado nas síndromes mielodisplásicas de alto risco é o mesmo que é prescrito para as leucemias mieloblásticas agudas. Embora varie de centro para centro, na realidade são apenas variações da associação de fármacos. Tem indicação nos doentes mais jovens, com bom estado geral. Pode ou não ser seguido de transplante, e implica um internamento hospitalar de algumas semanas. Após a terapêutica, o doente passa por uma fase de aplasia, isto é, de baixa dos valores hematológicos, o que leva à necessidade de transfusões de sangue e plaquetas. A baixa dos valores dos glóbulos brancos desencadeia o aparecimento de infecções graves que são combatidas com antibióticos e anti-fúngicos endovenosos. Quando tudo corre bem e os valores começam a normalizar, o doente pode ter alta hospitalar e recuperar na sua casa.

 

Quais os principais efeitos secundários da quimioterapia?


 

São variáveis de acordo com o tratamento.

 

Células do sangue: de um modo geral, pode dizer-se que a quimioterapia não afecta só as células malignas, mas também as saudáveis, em especial as de crescimento rápido. Isto aplica-se às células do sangue, pelo que pode surgir anemia, baixa dos glóbulos brancos ou das plaquetas.


Células dos cabelos/pêlos: aplica-se também aos cabelos que podem cair (alopecia), de forma mais ou menos intensa, consoante os medicamentos. Mas é uma queda sempre reversível. Isto é, cerca de três meses após a suspensão dos tratamentos o cabelo apresenta já um crescimento visível.


Células do aparelho digestivo: outros aspectos a ter em conta são os relacionados com o tubo digestivo, em especial as náuseas, os vómitos e a perda de apetite. Para os primeiros existem medicamentos que os podem combater de forma eficaz. O doente deve falar com o seu médico se depois do tratamento sentir alguns destes sintomas. Ele pode mudar-lhe os anti-eméticos (medicamentos para os vómitos) para outros mais fortes. Quanto à falta de apetite há alguns truques alimentares (Saiba mais na secção perguntas frequentes).

 

Transplantes

 

O transplante de células jovens progenitoras hematopoiéticas, também designadas por células estaminais, após quimioterapia intensiva, é o único tratamento curativo existente para estas doenças. Estas células jovens são removidas do sangue ou da medula de um dador e depois congeladas e armazenadas. Após se ter feito a quimioterapia, são administradas ao doente através de uma infusão, tal como se faz com as transfusões. Dentro do organismo, estas células vão desenvolver-se e restaurar as células do sangue do doente.

 

Desvantagens da terapêutica

 

Contudo, esta terapêutica, que não tem indicação nos casos de baixo risco, tem algumas desvantagens. Em primeiro lugar, como acarreta mais riscos, apenas está indicada nos doentes mais jovens, de preferência com menos de 40 anos. Esta é uma doença de pessoas com mais idade, pelo que o número de pacientes a que se aplicam estes tratamentos é reduzido. Depois, é necessário que exista um dador compatível, de preferência da mesma família. Vemos assim que o leque de doentes a que se aplica esta terapêutica é pequeno, não ultrapassando os 8%. Por outro lado, a mortalidade destes procedimentos é também muito alta, assim como a taxa de recaída aos cinco anos. Trata-se, portanto, de uma decisão difícil, que deve ser discutida com o doente, quando a mesma estiver indicada.

 

Os auto-transplantes, isto é, a administração de células jovens progenitoras hematopoiéticas do próprio, em alguns estudos, mostraram eficácia, mas na prática não têm indicação nesta doença.

 

Mini-transplantes

 

É provável que a utilização dos chamados mini-transplantes, em que se utiliza uma quimioterapia não tão agressiva, possa de futuro ter alguma indicação para doentes mais velhos que os referidos anteriormente. Contudo, trata-se de uma terapêutica ainda em investigação.

 

Esta doença raramente pode surgir em crianças. Neste grupo etário existe indicação para transplante, desde que haja dador compatível. Nestes casos, os resultados são muito positivos, levando a longas sobrevivências.